terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Capítulo 1

– Rafael! – Chamou uma voz potente como o trovão, porém tão mansa quanto às águas de um lago. – Já sabe o que fazer?
            – Sim, Onipotente! – Respondeu o anjo da classe Potência (pertencente à segunda tríade, junto com os Dominações e os Virtudes) enquanto se prostava diante de um brilho inimaginável.
            Em um piscar de olhos Rafael estava sob o Oceano Atlântico, se arrastando pela imensidão finita, enquanto, em baixo de si, via-se um acumulo colossal de criaturas marinhas que o seguia. Com grande esplendor o jovem anjo deixou suas grandes asas se manifestarem e numa incrível velocidade desapareceu dali.

***

            – Mãe, hoje haverá uma festa na casa da Marcela, e depois vou posar lá. Posso ir? Por favor, diz que sim.
            Camila colocava algumas peças de roupa dentro de uma mochila enquanto pedia à mãe.
            – Claro que pode, aliás, eu iria sair hoje também... com o Eric. Não posso permitir que você fique em casa sozinha. Ou na casa da Marcela, ou na sua avó.
            Cristina arrumava alguns bolinhos na forma para levá-los ao forno.
            – Camila. Acho melhor você ir para a casa da Marcela, sua vó anda muito doente. – Completou Cristina.
            – Era o que eu estava dizendo até agora, senhorita Cristina. – Disse Camila com um ar de “meu Deus, como pode?”
            Camila colocou sua escova de dente no bolsinho de trás de sua mochila. Cristina olhou para a mochila e depois para sua filha.
            – A que horas você vai pra casa da Marcela?
            Camila sorriu. Conferiu as horas em seu celular apontou para o teto com o indicador. A campainha tocou.
            – Eu vou agora, mãe!
            Cristina sorriu e abraçou Camila.
            – Não vá passar dos limites, dona Camila. – Recomendou Cristina que em vez de se escorar com a mão sobre a mesa, colocou-a dentro da tijela de cobertura de chocolate. – Droga! – Praguejou a mulher que rapidamente lavou a mão grudenta.
           
            Camila estava sentada em um sofá no centro da sala da casa de Marcela, bebia algo que nem sabia o nome, apenas sabia que a queimava por dentro. A cada gole a garota loura demonstrava uma cara de enjôo. Uma música alta fazia alguns se movimentarem. Devagarinho, devagarinho. Para Camila tudo parecia lento e distante, mesmo com uma caixa de som em seu ouvido a música parecia vir de outro quarteirão.  Um calor infernal fez com que a menina quase bêbada, tirasse o casaco que usava. A única coisa que não conseguia tirar de si era a lembrança de ter flagrado Gabriel com sua melhor amiga.
            “Fernanda passara na casa de Camila para levá-la à festa que Marcela daria em sua casa. Dentro do carro, Fer, como Fernanda era chamada, falava de cada garoto que estaria na festa, porém para Camila ninguem mais importava, senão Gabriel.
            “Ao chegar à casa de Marcela, Camila desceu correndo do carro de Fer e foi logo entrando, apoiou a mochila em uma poltrona que encontrou, e de dentro dela tirou seu “look” completo, incluindo maquiagem. Subiu as escadas que dava acesso ao andar supeiror da casa, onde ficava o quarto de Marcela. Sabia que sua amiga estaria lá e ela a ajudaria arrumar-se para a festa. A porta do quarto estava entreaberta, por isso foi entrando. Deparou-se então, com Gabriel beijando Marcela. Camila ficou parada próxima á porta boquiaberta, “Marcela sabia que eu gostava dele! Como pode fazer isso?”.
            “Preferiu não dizer nada. Nem Marcela, nem Gabriel percebeu a convidada, que correu para o banheiro onde se trocou, chorou, maquiou-se, chorou e refez a maquiagem, estava linda, porém sem ânimo algum de sair dalí. Queria curtir a festa, haveria muitos outros garotos bonitos, não poderia deichar aquilo subir-lhe à cabeça, embora já estivesse lhe dando aos nervos.”
            A festa não estava sendo o que pensava que seria, era o flagra que a assolava. Estava quase pegando no sono, e se permanecesse alí iria dormir, mas não era o que queria. Levantou-se um pouco zonza e quando percebeu estava sentada em um murinho de tijolos á vista que cercava um canteiro de flores. Estava com o pensamento longe, embora estivesse alí, observava a Lua e nem sabia. Uma estrela cadente cortou o céu e Camila a seguiu com a cabeça.
            – Oi – disse um rapaz que estava sentado ao lado, Camila até então não havia percebido sua presença. – Linda noite, não?
            Camila, com o susto, se desequilibrou e veio ao chão. O rapaz afastou os cabelos castanhos dos olhos e sorriu. Ela tinha certeza de que não havia ninguem alí além dela. “Seria a estrela cadente, se não fosse impossível!”, pensou.
            – Me desculpe, não queria assusta-la.
            – Ah, não foi nada, eu que ando muito distraída.
            ­– Eu sou Rafael – disse o anjo estendendo a mão.
            Camila olhou-o, ele estava com a mão estendida, os olhos fixos nos seus e um sorriso exuberante. “Lindo, muito lindo!”, foi o que conseguiu pensar Camila. Rapidamente aproximou sua mão da de Rafael.
            – Oi, meu nome é Camila. Não tinha te visto aí do lado.
Ao apertar a mão de Rafael, Camila sentiu uma grande energia e um calor aconchegante.
            – Percebi. O que está fazendo aqui sozinha?
            – É... Ah, nada, nada... Estava vendo o céu. Lindo não é?
            – Não imagina o quanto – disse o anjo percebendo, logo após, que acabara de dar uma bola fora. – Você parece triste. O que houve?
            – Como assim não imagino?
            – Não mude de assunto – cortou Rafael.
            – “Se liga”, garoto! – Disse Camila levantando-se e se afastando chateada, não pela cortada que levara, mas sim por ele ser um belo rapaz e ter uma personalidade estúpida. Ele mal a conhecera.
            “É... ela não leva estupidês na brincadeira. Imagino sua personalidade”, pensou Rafael. Um grilo que estava sob uma pétala de margarida, suplicava insistentemente pela ajuda do anjo, uma de suas patas traseiras não estava em seu devido lugar. O anjo olhou-o com desdém, porém o grilo era insistente. O anjo passou com a mão por cima do inseto, que logo em seguida saiu pulando com sua pata curada.
            – Acho que você precisa de mais jeito com elas. – Disse um rapaz que se aproximou e apoiou-se na parede onde ficava o canteiro.
            Rafael assustou-se e observou-o. Ele não lhe era estranho. Seus cabelos arrepiados... porém não conseguia recordar.
            – Eu sei, só estava testando-a.
            – Teste? Testando pra quê?
            – Nada, deixe quieto.
            O rapaz se aproximou e sentou-se ao lado de Rafael, e ofereceu-lhe cerveja.
            – Rafael, não é? Eu sou Lúcio.
            – Como sabe meu nome? – Assustou-se Rafael.
            – Ouvi vocês conversando...
            Rafael olhou-o com desconfiança. Uma leve brisa passou por eles fazendo balançar os cabelos do anjo. Lúcio sorriu.
            – Tenho que ir – disse Rafael levantando-se. – Vemos-nos mais...
            – Sim, sim.
            Rafael caminhou até o portão, por onde saiu. Foi até a sombra de um velho carvalho que havia na rua e por fim desapareceu. 

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