– Meu Senhor, a missão já foi iniciada, em uma semana o resultado será comemorado.
– Não deixes que cubram seus olhos Rafael – respondeu Deus.
Embora essas palavras não lhe fizessem sentido, Rafael após prostar-se, retirou-se da presença de Deus. E num piscar de olhos estava sentado sobre o topo de um edifício em uma cidade qualquer. Algo o atormentava.
***
Camila dormiu na casa de Marcela, mas antes que todos acordassem saiu em direção à sua casa. Não havia visto sua ex-melhor amiga no dia anterior, e nem no momento. “Deve ter dormido com ele.”, pensou Camila. Era uma manhã nublada de domingo, não se via muitos pássaros. Manhã perfeita para desastres.
Seu rosto de tristeza era evidente, algumas pessoas que passavam por ela notavam tal descontentamento. Só tinha vontade de gritar. Sabia que gostava de Gabriel, porém não imaginava que era tanto. Talvez fosse o fato de ele ter ficado com sua melhor amiga, em um dia que deveria ser de felicidade. Talvez isso aguçasse a tristeza. “Com todos os meninos que Marcela botava a cara eu a ajudava. Eu havia dito pra ela que gostava muito do Gabriel, até fiquei uma vez com ele. Como ela pôde fazer isso?”, pensava Camila.
Dobrou uma esquina, Rafael veio à sua cabeça como um relâmpago, seus olhos, seu calor. Quem era ele? O que estava fazendo na festa? Ele era estúpido daquele jeito? Não parecia ser.
“Meu Deus, o que Marcela fez comigo?”, voltou-lhe a lembrança de Gabriel.
Ao chegar a sua casa, abriu a porta e entrou. Correu para o banheiro, tirou a roupa e entrou sob a água morna que caia sob seu corpo, fazendo-a ficar tranquila, sem nenhuma preocupação. Não sabe quanto tempo ficou lá, mas acordou de seus pensamentos quando sua mãe a chamava na porta.
– Sou eu que estou aqui, mãe – gritou Camila.
– O que houve, não ia ficar lá até de tarde?
Camila se enchugou, colocou outra roupa que estava em sua mochila e saiu do banheiro, indo deitar-se no sofá da sala. No cabelo uma toalha enrolada e em seu pensamento enrolada com as lembranças de Gabriel. Cristina aproximou-se, ergueu as pernas de Camila sentou-se no sofá e colocou as pernas da filha sobre seu colo.
– O que houve? – Perguntou. – Você está triste...
– Mãe, qual o nome do sentimento que temos ao flagrar o menino que gostamos ficando com nossa melhor amiga?
– Raiva, mágua, tristeza...
– Então estou triste sim, só que com um tanto de raiva e mágua, tambem.
– Não fique assim, filha. Isso acontece, é tão normal.
Camila virou-se e colocou a cabeça no colo de Cristina.
– Mãe foi a Marcela, se fosse outra. Ela sabia que eu gostava dele, eu não acredito!
– Olha, quando acontecem essas coisas, o que você tem que fazer é ficar de queixo erguido, procurar fazer coisas pra esquecer o que houve de ruim. Sei lá, tente olhar pra outro menino, têm tantos outros aí que merece sua atenção, é só prestar mais atenção.
– Mãe, eu te amo.
– Eu também te amo, ouviu? Por isso esqueça a Marcela, o Gabriel e coloque a cabecinha no lugar, está bem?
– Espere! Como sabe que é o Gabriel?
– Eu sou mais esperta do que represento, mocinha. Agora me dê licença que vou preparar seu café da manhã.
Camila ainda desgostosa tomou um copo de suco de laranja com algumas bolachinhas integrais. Subiu para seu quarto onde colocou seu pijama deitando-se logo. Um edredom tentava espantar o friozinho que insistia em permancer em seus pés. Com os braços descobertos – embora seu corpo coberto até o pescoço – Camila olhava para o teto, acompanhando uma pequena mariposa que dançava livremente no ar.
Fazia o possível para não se lembrar do que vira no dia anterior. Suspirava de quando em quando. A mariposa começou a se chocar contra a janela, o que começou a incomodar a moça loura. Levantou-se, abriu a janela e o pequeno inseto desapareceu de vista. Mas na calçada, um rapaz passava acenando para ela. Era ele! Camila acenou de volta. Logo o chamou.
Desceu as escadas rapidamente, saiu pela porta da frente, o rapaz esperava-a próximo à porta. Usava uma jaqueta de couro preto por cima de uma camiseta branca. Uma calça justa também preta. Verificava as horas em seu relógio quando Camila chegou.
– Rafael! O que faz por aqui?
– Moro aqui perto. Pensei que havia ficado brava comigo ontem.
– Não, não... eu só não estava bem.
Rafael riu. “Aquele sorriso, meu Deus!”.
– Então, você mora aqui? Bonita casa.
– Não tanto quanto você – cochichou Camila para si mesma.
– Como?
– Ah, nada. Nada não. É eu moro aqui, sim – respondeu Camila.
– Eu estava pensando em você hoje. E ontem... ontem eu, quis dizer: eu estava pensando...
Camila passou a ouvir alguns “toc, toc” longínquos e sua mãe chamando-a para almoçar.
– Filha, acorde! Vem almoçar, já está pronto.
Fora tudo um sonho. A mariposa ainda dançava em volta da lâmpada apagada. “Ele ia me beijar, ele ia me beijar, ele ia me beijar...”, pensava Camila levantando-se.
“O que fui fazer? Será que fiquei com pena dela por causa do garoto que ela gostava? Não devia ter feito isso, não posso sentir pena.”. Rafael sobrevoava um grande campo gramado. Resolvera minutos antes aparecer nos sonhos de Camila, para tentar faze-la esquecer de Gabriel. “Mas por quê?”, pensava.
Rafael pousou no campo, contemplava de longe o nada. Um casal de coelhos passou a segui-lo. Logo vários outros casaisinhos de animais estavam em seu rastro. “Cada um com o seu par.”, pensou o anjo, “Preciso ve-la novamente”, completou.
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