terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Capítulo 3

           – Oi, Cami! Nem telefonei pra você ontem por que...
            Marcela entrava na sala, com o prefossor vindo logo atrás. Ele a interrompeu, seria aula de inglês e o professor era o mais exigente do colégio, Senhor Galeão.
            Camila, ainda rancorosa, olhou para Marcela com um agudo desdém.  Marcela, não se importou. Ou não percebeu. “Ainda tem coragem de vir falar comigo?”, pensou Camila.
            – Good morning, class! – Cumprimentou Senhor Galeão.
            – Bom dia – responderam alguns.
            – In english, please – exigiu o professor.
            – Good morning, teacher.

            Rafael estava também em sua primeira aula, mas não importava, estava ligado em outra coisa, outra pessoa ocupava sua mente. Não tinha certeza disso, mas suspeitava e/ou tinha medo da verdade.

            Alguem cutucou-lhe a costa, e logo após passaram-lhe um bilhete por sobre os ombros. Camila pegou-o e o abriu cuidadosamente em seu colo por baixo de sua mesa para que o profeesor rabugento não percebesse. No papel rosado agumas palavras, com caligrafia admirável, dizia: “No intervalo quero falar com você. Marcela.”.
            – E ainda quer falar comigo... – resmungou baixinho Camila.
            – Disse algo, senhorita Camila? – perguntou Senhor Galeão. 
            – Não.
            “Ela ainda quer falar comigo? Não acredito. Depois do que fez ela ainda quer falar comigo?”, pensava. Depois do bilhete não conseguiu se concentrar mais na aula. Na folha em branco de seu caderno passou a desenhar algumas figuras que ilustravam o que estavam sentindo no momento, porém elas não se pareciam com nada existente.
            Veio o fim da aula de inglês e o início da de matemática, logo veio a aula de história. Enfim o intervalo. Camila não pretendia falar com Marcela pelo resto de sua vida. Pegou algum dinheiro dentro de sua bolsa e saiu da sala para ir à cantina comprar algo para comer. No corredor foi alcançada por Marcela.
            – Amiga, amiga. Não te liguei ontem porque aconteceu uma coisa incrível! E eu não te vi na minha festa, estava muito ocupada.
            “Sim, estava ocupada acabando comigo!”, pensou Camila. Não olhava para Marcela, apenas caminhava fingindo que a garota não existia.
            – Você não imagina o que aconteceu! Eu fiquei com o Gabriel, Cami, com o Ga-bri-el. Foi um pouco antes da festa, ele chegou mais cedo, estavamos sozinhos... e acont... – Marcela parou repentinamente. – Oh, meu Deus, Cami. Me desulpe, eu me esqueci. Caramba eu não fiz por mal. Por favor, me desculpe.
            Marcela segurou Camila pelo braço, que parou, livrou-se da mão da, até anteriormente, amiga e continuou andando. Marcela ficou parada no meio do corredor olhando-a boquiaberta.
“O que eu fiz?”, pensou Marcela, “Você é muito idiota!”, chingou a si mesma.
            Camila foi até a cantina, onde comprou um sanduíche natural. Sentou-se em uma das cadeiras livres e manteve-se alí, sozinha. Ela e seus pensamentos. “Marcela havia se esquecido que eu gostava de Gabriel. Será que é verdade?”, pensava, “Será que ela merece minhas desculpas? Ela sempre foi minha melhor amiga.”.
            – Oi, dona Camila.
            Camila não percebeu a chegada do atrevido que veio interromper seu mergulho em desvaneios.
            – Ei, você está bem? Parece que só te pego em má hora... – Disse o anjo, balançando a palma da mão em frente aos olhos da menina longíncua.
            – Rafael?! – Camila engasgou – O que você está fazendo aqui?
            – Estudo aqui, ora.
            – Nunca te vi por aqui...
            – Parece que está triste. Novamente. Está?
            – É que estou com alguns problemas, e você sempre me aparece nas piores horas.
            – Sério? Se quiser posso te deixar sozinha, vou prá lá com alguns amigos.
            – Não! Fique. Esqueci de falar da parte em que acho que você me consola nessas horas.
            Rafel riu.
            – Então não vou sair daqui. Vou ficar destraindo você, vai esquecer rapidinho de seus problemas.
            – Tomara que sim – Respondeu Camila. – Quer? – Ofereceu.
            – Não, obrigado. Já comi. – Rafael sorriu sem mostrar os dentes, olhando para os olhos de Camila. Esta ficou sem graça.
            – Sobre sábado à noite. Desculpe-me ter te deixado falando sozinho – disse Camila.
            – Nem ligue, não levei à mal. Sabia que você não estava bem. E eu também forcei – Rafael olhou para as mãos de Camila. – Anel bonito... – Disse apontando com os olhos.
            Camila trocou o lanche de mão. Olhou para seu anel na mão direita, momento que lhe trouxe muitas lembranças.
            ­– Ah, sim! Minha amiga me deu, símbolo de nossa amizade.
            – Os humanos também aplicam símbolos à amizade?
            – Bobo. Como se você fosse um extraterrestre.
            Rafael riu sem jeito. Outra bola fora.
            – Que amiga lhe deu o anel?
            Camila fechou a cara. Seus olhos umedeceram-se.
            – Foi a Marcela, mas acho que ela não é mais minha amiga. Ela roubou o único garoto de quem eu gostava. Ah, esquece.
            – Se você estiver falando daquele... – disse Rafel apontando para um lado do salão, Gabriel beijava uma garota, que não a Marcela. – Ele não te merece, cada dia está com uma diferente, acho que não iria te respeitar.
            Camila apenas escutava. Abandonara o resto de seu sanduiche sobre a mesa.
            ­– E Marcela? – Continuou Rafael – Se ela era sua melhor amiga (tinham até símbolo de amizade) não fez isso por querer. Não mesmo. Ela devia ter se esquecido... Merece seu perdão.
            – Ela pediu que conversase comigo? É isso né?
            – Calma... Eu nem a conheço.
            – Então como sabe que ela havia se esquecido ou não sabia?
            – Eu conheço as pessoas. Veja só alí do outro lado, viu? A Marcela está triste e parece que sente muito por isso.
            – Ei! Como sabe que ela é a Marcela?
            – Você não para de olhar pra ela, e seu olhar era muito triste quando a olhava.
            – Você é esperto! Acho que vou falar com ela – disse Camila levantando-se. – Tchau.
            Rafael sorriu. Continuou sentado alí, ainda faltavam cinco minutos para o fim do intervalo.
            – O que você está fazendo? – Perguntou repentinamente Alaniel.
            Alaniel era um anjo Dominação, da mesma tríade de Rafael, porém superior.
            – Me assustou, Alaniel – disse Rafael sério.
            – Não me venha com essa, estúpido! Você sabe qual é a sua missão, não deve se aproximar dessa forma!
            – Eu tenho uma semana para completar minha missão, irmão. Eu sei o que devo fazer, e ainda tenho alguns dias.
            Alaniel olhou-o com superioridade. Rafael sorriu cinicamente. Em seguida o alarme tocou, avisando aos alunos de que deveriam voltar à suas salas.
            – Vou voltar para minha sala – disse Rafael. – Com licença.
            – E desde quando um anjo precisa estudar, Rafael?
            – Desde que me matriculei aqui, para me aproximar de meu objetivo.
            – Sabe que não deve se relacionar com as pessoas deste mundo do modo que está fazendo.
            – Sei sim... – Rafael se levantou e afastou-se da presença de Alaniel.

***

            – Obrigada, amiga. Que bom que me compreende! – agradeceu Marcela.
            – Me desculpe, eu me precipitei muito.
            – Olha, vou fazer de tudo para que Gabriel fique com você, tudo bem?
            – Deixe Gabriel prá lá. Acho que ele não me merece – respondeu Camila se lembrando das palavras de Rafael.
            O professor entrou na sala para o início da quarta aula do dia.

***

Rafael voltou para sua sala sentou-se em sua cadeira, que escolhera no ínicio do dia, ao fundo da sala. Logo mais pessoas foram chegando, ocupando todos os lugares. No meio da turma reconheceu uma pessoa. Um rapaz de cabelo arrepiado olhou para trás em direção a Rafael como se adivinhasse que estava sendo observado. Sorriu.
– Lúcio? Estuda aqui? Não havia lhe visto antes na sala. Como vai? – Cumprimentou Rafael.
– Rafael... Está tudo certo. E você?
– Também.
– E a Camila?
– O que?
– A Camila.
– A sim. Hoje... eu falei com ela.
Uma professora entrou na sala. Senhora de uns sessenta e tantos anos. Seus cabelos visivelmente tingidos eram presos em um firme coque acima da nuca. Pegou um livro negro na mão e abriu em uma página. Seria muito severa se dependesse de sua aparência.
– Bom dia, pessoal! – Cumprimentou. – Fiquem atentos, pois farei a chamada e logo após darei início à aula.
A professora sacou seus óculos de aro grossos de sua bolsa. Colocou-os e sua severidade aparente aumentou em dobro. Sua voz estridente começou a chamar pelos nomes dos alunos que respondiam “Presente”. Chegara então a vez de Lúcio.
– Lúcio Fernandes?
– É isso! – Gritou Rafael lá do fundo.
A sala mergulhou em um esquisito silêncio. Todos olhavam sem entender para o fundo em direção ao anjo. Este por sua vez desculpou-se. A sala caiu na gargalhada. Sem escolha riu também.
“Sim é ele!”, pensava, “Como não pude reconhecer. Lúcio Fernandes, tão óbvio. E eu não percebi. Mas o que ele está fazendo aqui? E porque me perguntou da Camila? Tenho que descobrir o que ele quer!”
– Rafael? – Repetiu a professora pela terceira vez.
– Oi... Ah, presente!
Lúcio de tempos em tempos olhava para Rafael. Este por sua vez desviava o olhar.

***

            O fim da aula chegou trazendo alívio à maioria dos alunos.  Iriam para casa, almoçariam e teriam a tarde livre. Outros não.
            – O que você quer? – Perguntou Rafael para Lúcio ainda dentro da sala.
            – Não entendi!
            – Não seja estúpido! Você sabe quem eu sou, assim como eu sei quem você é!
            – Rafael, o anjinho! Incubido da tarefa de exterminar Camila da Terra! Só queria acompanhar o caso de perto.
            – Não sou um exterminador, eu apenas recolho as almas segundo a vontade de Deus!
            – Estou vendo que seu caso não vai bem, Rafael! Parece que está se apaixonando por Camila?
            – Você está louco? Isso não é permitido, e eu não seria capaz de infringir essa lei!
            – Mas essa é a verdade, divino. Eu mesmo me encarreguei de isso acontecer, e está acontecendo!
            – Meu Deus! Seria possível?
            Lúcio riu e desapareceu. Ficara apenas Rafael na sala.

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